From the Naked in Santissimo to the Safe Port of Fluminense, Marcão Follows as Interim ... - O GLOBO - O GLOBO
É praticamente impossível falar de Marcão sem falar de Fluminense. Afinal, os dois parecem caminhar juntos desde sempre. Se, após a classificação na Libertadores, o interino comanda hoje um reenergizado time diante do Remo, às 16h, no Maracanã, pelo Brasileirão, é preciso voltar ao fim da década de 1980, quando o jovem Marco Aurélio de Oliveira era apenas um humilde jogador de pelada em Santíssimo, na Zona Oeste do Rio, para traçarmos o caminho até o início de uma relação que se mostrou eterna com o tricolor.
Até os 18 anos, o jovem chamado carinhosamente de Marcão pelos amigos dividia o futebol de subúrbio com o trabalho de torneiro-mecânico. Seguiu sonhando por incentivo de seu pai, seu Moacir. E foi com a camisa do Mordomia FC que o estagiário pelo Senai viveu o momento de virada de chave em sua vida, quando já pensava em desistir do esporte: um gol marcado em um jogo-treino contra o Bangu, em 1989, abriu as portas do clube de Moça Bonita para o seu futebol.
Incorporado às categorias de base com uma idade em que muitos jovens já sobem para o profissional, Marcão foi promovido para o time principal em 1992, aos 21 anos, pelo técnico Dé Aranha na Série B. Foi só em dezembro de 1999, após rodar sem sucesso por Criciúma, Bragantino e passar brevemente por um quadro alternativo do Vasco, que o volante chamou a atenção do Flu no Campeonato Carioca.
O clube disputava a Série C do Brasileiro, e o volante rapidamente conquistou espaço na equipe do técnico Carlos Alberto Parreira. Uma reportagem do GLOBO daquele período, assinada por Milton Costa Carvalho, o descrevia como o “xodó” do treinador. Aos 27 anos, Marcão celebrava:
— Faço taticamente o que ele pede. Meu futebol cresceu e hoje sei que não devo me preocupar em armar jogadas, como fazia. Meu negócio é ali atrás, cobrindo e protegendo os zagueiros. Com 27 anos, chegou a minha vez de correr atrás do prejuízo.
Volante de forte marcação e pouca preocupação com os holofotes, tornou-se peça importante na campanha que tirou o Fluminense do fundo do poço. Parreira chegou a compará-lo a um de seus titulares na seleção tetracampeã do mundo:
— Confio nele. Me lembra o Mauro Silva, pela capacidade de marcação implacável e pela regularidade durante os 90 minutos. Não tenho ninguém para substituí-lo.
A relação com o Fluminense se consolidou nos anos seguintes. Marcão disputou quase 400 partidas pelo clube entre 1999 e 2006, conquistou dois Campeonatos Cariocas, além da Série C, e tornou-se capitão. Em 2005, marcou um dos gols do título estadual contra o Volta Redonda.
Naquele mesmo ano, Marcão deixou o Flu para jogar no Catar, em busca de independência financeira. Na despedida, porém, deixou clara a dimensão de sua relação com o clube: “Agora, sou o torcedor número um do Fluminense”. Pouco mais de um mês depois, estava de volta às Laranjeiras, prestigiado com a braçadeira de capitão pelo então técnico Abel Braga.
Depois de pendurar as chuteiras em 2011, pelo Bangu, assumiu como técnico do time. Antes de voltar ao Flu em 2019 para a comissão técnica permanente, foi auxiliar técnico de 2014 a 2016. Nos dois períodos, foi chamado para assumir a equipe em momentos de turbulência.
Em 2019, chegou a ser efetivado e ganhou uma sequência maior, quando ajudou o clube a escapar do rebaixamento. Em 2021, conduziu a equipe à classificação para a Libertadores. No mesmo ano, recusou uma proposta do Flamengo, resumindo o motivo da rejeição em uma carta aberta, na qual exaltou a sua ligação com o Fluminense: “Não há dinheiro capaz de superar a paixão de uma vida”.
A identificação nunca significou acomodação para Marcão, que buscou formação para a nova carreira: fez cursos de treinador, obteve licenças da CBF e concluiu, em 2026, a faculdade de Educação Física pela Estácio de Sá, iniciada mais de uma década antes.
— Tudo que passei como jogador, como treinador interino, tudo foi resumido naquele momento — contou o ex-volante ao Globo Esporte.
A longa trajetória de dedicação ao clube é recompensada com a gratidão dos tricolores, que coroa uma relação construída ao longo de quase três décadas. Ao ser acionado mais uma vez, Marcão fez torcida e clube poderem, novamente, recuperar a confiança e sonhar com um fim de temporada melhor.
*Jornalista participante do curso Jornalismo do Futuro, do GLOBO, sob supervisão de Felipe Siqueira.
